Hottest Takes #175
Vencedor da Copa do Mundo: Keyne Yamal, irmãozinho de Lamine
1) Falei aqui sobre o primeiro beijo da história da arte, nas paredes da Capela dos Scrovegni, em Pádua. Postei outro dia no meu Instagram uma foto de Anna e Joachim, os pais de Maria, se atracando no afresco. Logo ao lado, acrescentei um dos meus beijos favoritos, uma escultura de Brancusi. Poderia ter colocado também o amasso de Klimt. Mas logo fui corrigida pelo meu amigo genial, o artista Pedro França. Ele sacou uma foto da Serra da Capivara, no Piauí. É claro que na terra do Carnaval, o primeiro beijo tinha sido registrado 15 mil a 30 mil de anos antes do beijo “seminal” de Giotto. Como não amar essa notícia?
Giotto, 1305
Brancusi, 1923-25
Klimt, 1907-08
2) E por falar em pinturas rupestres, Marina Abramovic comentou numa entrevista sobre uma descoberta científica de que os desenhos nas cavernas eram feitos por mulheres enquanto os homens caçavam! Elas ficavam na caverna cuidando das crianças, cozinhando e fazendo arte :) Isso me lembrou o texto maravilhoso The Carrier Bag Theory of Fiction (1986) de Ursula LeGuin sobre o tema (em português, aqui).
3) Ainda na onda das mães nas cavernas, minha terapeuta outro dia postou uma frase de Aline Bei sobre as baguncinhas que as crianças fazem em casa. Eu, que passo o dia dando bronca para que meus filhos adolescentes levem os pratos pra cozinha e tirem as toalhas da cama, me emocionei com o trecho:
Mas é bonito, sim, ver as coisas de alguém espalhadas pela casa. Dá amor pela pessoa e pela casa.
4) O programa Roda Viva entrevistou a autora Ana Maria Machado. Grande parte das perguntas foram sobre censura e a cultura do cancelamento. Ao responder sobre pedidos para que ela altere livros escritos décadas atrás, e livros “cancelados”, ela diz:
O segredo [para lidar com essas questões] não é ler menos, é ler mais.
5) Anni Albers:
Ser criativo não é tanto o desejo de fazer algo, mas sim a escuta daquilo que quer ser feito: a ditadura dos materiais.
Que me lembra a frase de Ezra Pound:
O artista é a antena da raça.
Isa Genzken, 2014
6) Esse texto de Natália Sulman sobre a timidez usa a Odisséia como ponto de partida:
A timidez é uma forma hipócrita de vaidade: você sente que é importante demais para ser imperfeito na frente dos outros. Atena diz a Telêmaco: “não sintas vergonha” (o que ela está dizendo é: esqueça um pouco de si mesmo e busque a verdade). A vergonha, nesse contexto, começa como uma identificação excessiva com a persona, isto é, com a imagem que nós desejamos projetar aos outros. A pessoa prefere não agir a correr o risco de parecer imperfeita. Sabe por que tantas pessoas ficam com uma mente infantil? Porque fogem de todas as situações em que suas limitações podem aparecer. Preferem ficar no terreno conhecido (ainda que pequeno) a entrar no desconhecido, onde inevitavelmente terão de errar, perguntar e aprender. Fazem isso para proteger o ego. Portanto, o grande problema da timidez é o excesso de apego ao “eu”. “Eu não posso falhar, preciso parecer perfeito”.
A timidez pode parecer coisa de gente humilde, que não quer chamar a atenção, mas é justamente o contrário: ela existe porque você se tornou o centro da própria atenção. Quando deixa de ocupar esse centro, você passa a fazer o que precisa ser feito, porque está mais interessado na realidade e nas pessoas do que na imagem que elas formarão de você.
Por isso, a intervenção de Atena é profundamente simbólica. Logo depois de dizer “não deves sentir vergonha”, ela acrescenta: “Pois atravessaste o mar para saber notícias de teu pai”. É como se dissesse: “a cura da timidez é pensar menos em si mesmo. Lembre-se de seu pai. Lembre-se de sua missão e faça o que precisa ser feito”.
O herói vence a timidez quando deixa de priorizar os próprios sentimentos para priorizar a realidade. Sob essa perspectiva, o fim da timidez marca a passagem da infância para a vida adulta. A criança acredita que seu valor depende da impressão que causa: o adulto descobre que seu valor depende da capacidade de fazer o que precisa ser feito, mesmo correndo risco de errar e ser incompreendido.
Quero essa canga “da Odisséia” :) (aqui)
7) David Hume:
A beleza não é uma qualidade das próprias coisas: ela existe apenas na mente que as contempla, e cada mente percebe uma beleza diferente.
8) Hanna Piette via Paris Review:
Penso naquilo que amo e meu amor por aquilo cresce.
Cézanne, 1885-87
9) Gostei dos comentários da crítica de arte Celeste Marcus na conversa com Henry Oliver sobre artistas. Para ela, Cézanne “é preciso sem ser frio”. Quase tão bom quanto o comentário de Laura Owens que disse que o artista “é o deus da ‘prestação de atenção’”.
“the god of paying-attention-ness” (aqui)
10) Para receber amigos na varanda, no verão, tomando uma cervejinha gelada:













Amei amei : criativo não é tanto o desejo de fazer algo, mas sim a escuta daquilo que quer ser feito: a ditadura dos materiais. - lembrei da carta do mago no tarot.
Delicia lere ouvir tudo! Tb quero a canga da Odisseia rsrs