Hottest Takes #169
Bouquet of Flowers, Odilon Redon, ca. 1900–1905
1) É bem raro eu querer ler duas vezes o mesmo livro. Foi o que aconteceu quando “How To Do Nothing”, da Jenny Odell, caiu em minhas mãos. Numa newsletter, vi a recomendação de um novo texto dela e fui correndo devorar (íntegra aqui). Abaixo, nos próximos itens, alguns trechos editados e traduzidos livremente que chamaram minha atenção:
Tom me contou sobre um jeito de olhar que ele tinha aprendido enquanto fazia a manutenção das trilhas para andar a cavalo na área. A fim de evitar acidentes, como o cavalo escorregar e cair, você tinha de olhar de um jeito parecido com o que, ele alegou, um cavalo olha — mantendo algum foco cerca de 3 metros à sua frente, mas também ligado em sua visão periférica. Ele chamou isso de “olhar suave”. Quando experimentei, notei o tapete de folhas de sequoia e as solas dos sapatos de Tom enquanto tentava deixar entrar as pontas das plantas que estavam roçando minha cabeça nas laterais. Quase instantaneamente, senti que estava mais presente do que eu estava um momento atrás.
Quando mais tarde pesquisei “olhar suave”, vi que versões dessa prática aparecem em mindfulness, nas artes marciais, na caça e, no caso de pelo menos um jogo, o hóquei. Um conselho para praticar olhar suave é fingir que você está olhando como se seus olhos estivessem apoiados “na parte de trás da sua cabeça” em vez da frente. Experimente: vá para fora, ou para uma janela, e concentre-se muito intensamente em uma coisa a uma distância média. Daí, deixe o resto da cena entrar, perto e longe, incluindo os lados mais distantes de sua visão periférica, e até mesmo seu próprio corpo no espaço.
Sempre que faço esse exercício mental, algo físico acontece: além da mudança no que estou vendo ativamente, inevitavelmente percebo que partes do meu corpo — minha testa, mandíbula, pescoço e ombros — relaxam. Acho que estou respirando mais devagar. Percebo que, na minha maneira habitual de olhar, eu me esforço, tentando chegar a algo. O nosso olhar pode ser agressivo. E esta pode ser a nossa maneira padrão de olhar. Quando compartilhei isso com uma amiga artista, que usa olhar suave para pintar, ela chamou esse olhar agressivo de um que está “preocupado com roubar ou consumir”.
René Magritte, The False Mirror, 1929
2) O que ela fala sobre o olhar, vale também para os ouvidos:
A diferença entre olhar suave e o contraste implícito — que talvez possamos chamar de “olhar duro” — me levou de volta a algo que a compositora e artista sonora Pauline Oliveros escreveu sobre sua prática de escuta profunda. Oliveros definiu a prática como “ouvir de todas as maneiras possíveis, não importa o que você esteja fazendo”. Para ela, a escuta profunda era algo tanto para fora quanto para dentro, incluindo até o som dos nossos próprios pensamentos. Oliveros considera a escuta profunda necessária porque somos culturalmente treinados para fazer o oposto: analisar e julgar rapidamente, em vez de deixar outra coisa entrar. A verdade é que aprender algo como a escuta profunda ou olhar suave requer treinamento.
Salvador Dalí
3) E essa parte em que ela escreve sobre observadores de pássaros:
Os outros exemplos vêm da observação do mundo natural, especialmente das aves, uma prática que requer “não fazer nada”, mas também usar todos os sentidos para ter um encontro com um ser mercurial. Aprendi a usar o iNaturalist, um app que ajuda a identificar plantas e como isso refina meu olhar para espaços que antes eram apenas “um monte de verde”.
No entanto, senti que há algo não totalmente desenvolvido no meu livro “How to Do Nothing”. Que algo tem a ver com quem ou o que está do outro lado da observação, bem como com quem ou o que está fazendo a observação. Escrevo que, enquanto olhava para os pássaros, eu passei da pergunta “o que tem lá?” para “quem está lá?” E cito Gloria Bird, membro da Tribo Spokane do Estado de Washington, lembrando como sua tia uma vez olhou para o que restava do Monte St. Helens e disse: “Coitada”. A tia de Bird, ela escreve, “tratou a montanha como uma pessoa”.
A diferença entre “o que” e “quem” tem a ver com o tempo. No caso da observação de aves, você pode primeiro identificar algo por como ele parece ou soa, mas anos depois, ainda observando, você continua a ver comportamentos variados, respostas variadas. Mais familiaridade apenas traz mais perguntas – os pássaros se tornam mais misteriosos, não menos.
Kiki Smith
4) E essa conclusão:
No final, pode não ser completamente diferente de ouvirmos uns aos outros. Em um maravilhoso artigo da Bay Nature sobre as salamandras terem ou não sentimentos, Brandon Keim cita um behaviorista animal e professor de estudos ambientais que acredita que nunca saberemos qual a perspectiva de um outro ser. Mas, acrescenta o professor, “isso também é verdade para você com relação a mim: eu nunca habitarei totalmente sua perspectiva. E essa impossibilidade não significa que não vale a pena tentar. Muito pelo contrário: seria ofensivo se eu me recusasse a tentar entender sua perspectiva apenas por não ser totalmente capaz de entendê-la perfeitamente. A tentativa é o que importa.”
Lá, na areia da margem do rio, você me vê. É fim de tarde e estou olhando para as árvores do outro lado do rio, ouvindo-as, tentando entender. Estou suavizando meus olhos para incluir tudo ao seu redor. Eu faço isso por tanto tempo que, eventualmente, algum limite parece cair. No lugar de entidades, tudo o que sinto é movimento: do ar através das folhas das árvores e meus próprios pulmões; a água empurrando além dos paralelepípedos de arenito, comprimindo o ar e atingindo meu ouvido interno; a eletricidade em seus caminhos através do meu cérebro, reproduzindo a cena dentro da minha cabeça; o sol desaparecendo atrás da montanha, o frio subsequente que sinto na minha pele, a gravidade me mantendo nas margens. Algo volta para mim, mesmo que muito brevemente. Eu me propus a explorar as árvores e, em vez disso, descobri – não, não sou bem eu mesma. E também não são as árvores individualmente. É algo no meio, quase como uma “teia de aranha”: um diálogo entre coisas terrenas.
Roxy Paine
5) Fiquei louca com essa tote de fim de semana da Clare V. (aqui):
Quase tão legal quanto esta, que uso pra viajar, da Lewis is Home (aqui):
6) Amei esse texto sobre as origens de “dar os ombros”, ou o shrug. Íntegra aqui.
Há um tom específico empregado pelos postadores mais assíduos das mídias sociais que eu vim a detestar. O tom é mais frequentemente empregado enquanto se discute — os super-usuários normalmente exibem sua devoção através desses embates — e eu me familiarizei com isso porque consumo brigas online com uma devoção própria. A devoção de um estudioso misturada com algo mais patológico, como, digamos, o masoquismo. Embora eu planeje gastar todo esse texto dissecando esse tom, ele pode ser resumido pelos seguintes símbolos: 🤷 🤷 🤷, ou mais antigamente, ̄\_(ツ)_/ ̄ (embora eu admita que esse mexe mais comigo, apesar de ter caído em desuso). Acredito que diagnosticar o abuso deste emoji revelará uma das razões fundamentais pelas quais me irrito com o mundo online. (…)
7) Em sua coluna intitulada “Os Leitores”, n’O Globo, José Eduardo Agualusa pergunta (e responde), “Leitores. O que são, afinal, leitores?”
-Aquelas pessoas que praticam a grande arte de ser outros.
- Aqueles que caminham devagar. Os desaceleradores do mundo.
- Seres capazes de chorar a morte de pessoas inventadas.
- Os que duvidam. Os que inquietam.
- Os que se espantam com um verso, uma metáfora, o adjetivo justo.
8) Seinfeld sobre meditar:
Sempre tive a habilidade de sacar o que é essencial. (…) Minha nova obsessão é o estoicismo. Tudo aquilo com o que você se preocupa sumirá daqui a pouco. (…) É perda de tempo! Apenas foque em ser melhor naquilo que você faz. Eu medito pelo menos duas vezes por dia. A importância da meditação da minha vida é chocante. Quer saber quais são as três chaves para o sucesso? Meditação transcendental, levantamento de peso e café expresso.
William Kentridge, Twelve Coffee Pots, 2012
9) Poema de António Barahona:
É perigoso atravessar
É perigoso ficar no meio
É perigoso ter medo
É perigoso parar
10) Playlist que tem tocado aqui durante as finais da NBA! Go, Knicks, go!











kentridge, maravilhoso!