Hottest Takes #167
1) No saguão do MoMA, desde o começo do ano passado, as paredes estão ultra coloridas. Os murais, que criam uma experiência imersiva, são de Odili Donald Odita e demoraram cerca de 6 semanas para serem pintados, usando 192 cores diferentes de tinta. Odita descreve suas cores como expressões de liberdade e transformação. “Existe um tipo de energia que é coletiva, em virtude da maneira como a música é capaz de afetar o corpo. É assim que desejo fazer com que minhas pinturas funcionem também.” Nessa semana, vou para a Filadélfia visitar o ateliê dele com um grupo e estou animadíssima. Estava lendo sobre o artista nigeriano-americano:
Apesar de enraizadas em um vasto leque de linhagens históricas — abordagens africanas de padronagem; pintura e design modernistas; e arte conceitual —, suas composições apelam de modo imediato aos sentidos, no aqui e agora.
A abordagem de Odita está impregnada de conectividade com o mundo ao seu redor, partindo de memórias, reflexões filosóficas e meditações.
PS: outro dia, resolvi pesquisar a etimologia da palavra contemplar — sua formação une o prefixo intensificador con- com templum, indicando a ação dos antigos adivinhos romanos de "marcar um espaço sagrado no céu" para observar presságios. Prestar atenção.
2) Lá em Philly, também vou revisitar o Calder Gardens (aqui). Em 1946, Jean Paul Sartre escreveu sobre ele:
Os objetos de Calder são como o mar, e exercem o mesmo feitiço — sempre recomeçando, sempre novos. Um olhar passageiro não basta para compreendê-los. É preciso vivência-los, deixar-se fascinar por eles.
3) No podcast Business of Fashion, a CEO da Chanel Leena Nair e o diretor criativo da marca, Matthieu Blazy deram uma entrevista. Gostei de ouvi-los:
Leena: Acredito que precisamos preservar a criação humana, a nossa criatividade, esse trabalho feito com as mãos, de artesãos. Não podemos perder isso.
Os dias do líder-super-herói que tem todas as respostas ficou pra trás. Como pode um indivíduo ter todas as respostas? Solução coletiva para problemas, criação coletiva, ideação colectiva é o que realmente importa pra mim.
Matthieu: Quando fazemos algo à mão, sempre haverá um erro, o que não é exatamente um erro senão parte do processo. Um artesão não pode terminar o trabalho do outro.
Não há nada que eu ame mais do que pergubtar algo para meu time e eles responderem “não é possível”. Se eu escuto isso, sei que será uma grande aventura. E teremos que nos esforçar mais e mais.
4) Vocês já ouviram a parábola dos 6 homens cegos que encontram um elefante?
Nunca tendo encontrado o animal, eles se aproximam para tocá-lo, e cada um inspeciona uma parte diferente de seu corpo:
1º homem (lateral): “Um elefante parece muito com uma parede.”
2º homem (dentes incisivos): “Um elefante parece muito com uma lança.”
3º homem (tromba): “Um elefante parece muito com uma cobra.”
4º homem (perna): “Um elefante parece muito com uma árvore.”
5º homem (orelha): “Um elefante parece muito com um leque.”
6º homem (rabo): “Um elefante parece muito com uma corda.”
Por não conseguirem enxergar o todo, os homens discutem ferozmente, cada um convencido de que sua própria experiência limitada é a única verdade absoluta. O elefante simboliza uma realidade complexa ou uma verdade universal que é grande demais para ser capturada por uma única perspectiva.
Os homens cegos representam a nossa tendência de tirar conclusões absolutas e generalizadas a partir das nossas suas próprias experiências restritas e subjetivas, ignorando as perspectivas válidas dos outros.
A parábola ilustra que, embora todos os homens estivessem parcialmente corretos em suas observações táteis, eles estavam totalmente equivocados quanto ao todo. Para compreender questões complexas, é preciso considerar e combinar múltiplos pontos de vista.
Ouvi essa história no podcast abaixo, que fala da experiência de um fotógrafo que viaja para a Índia com um cego. Emocionante:
5) Francis Bacon em conversa com David Sylvester:
Quem, hoje, é capaz de registrar algo de forma que pareça um fato sem causar uma profunda lesão à imagem?
Francis Bacon, Self-Portrait, 1971
6) Lembrei taaanto do meu pai me buscando nas baladinhas dos anos 90… Via @over40vibes:
Quando eu tinha dezessete anos
Liguei para a minha mãe à 1h47 da manhã
de uma festa na qual eu não deveria estar,
com pessoas que ela não conhecia.Depois de ter dito a ela que eu dormiria na casa da Sarah.
Eu apenas disse: “Preciso de uma carona”.
Ela respondeu: “Estou a caminho”.
Sem perguntas.
Nem naquele momento. Nem no caminho de volta para casa.
Nunca.Achei que ela estivesse brava.
Ela não estava brava.
Ela chegou lá em doze minutos.
O que significa que ela saiu imediatamente.
O que significa que ela entrou no carro
vestindo a roupa com a qual estava dormindo
e dirigiu pela cidade às 2 da manhã para me buscar
em uma festa que ela nem sabia que existia.Ela parou o Honda verde.
Eu entrei.
Ela olhou para mim uma única vez.
Ela saiu da entrada da casa.
O caminho de volta para casa foi silencioso.
Não tenso. Apenas silencioso.
Fiquei esperando pela pergunta.
Onde você estava?
Quem eram aquelas pessoas?
Por que você mentiu para mim?
Ela nunca veio.
Ela ligou o rádio baixinho.
Ela dirigiu do jeito que sempre dirigia.
Como se eu não estivesse encrencada.
Como se aquela fosse apenas uma viagem normal.Quando chegamos em casa,
ela destrancou a porta.
Ela disse: “Beba um pouco de água antes de ir para a cama”.
Ela foi para o quarto dela.
Foi só isso. Foi tudo o que aconteceu.
Fiquei deitada lá, esperando a manhã chegar,
esperando pela briga.A manhã chegou. Ela preparou ovos.
Ela perguntou o que eu queria fazer naquele dia.
Já pensei naquela noite tantas vezes
desde que me tornei mãe.Penso no que ela sabia que eu não sabia.
Ela sabia que eu tinha ligado.
Era isso o que importava.
Eu estava em um lugar onde não deveria estar,
mas eu tinha ligado para ela.Era só disso que ela precisava.
O resto não importava.
Ela não ia punir o fato de eu ter ligado.
Agora eu tenho uma filha adolescente.
E já disse a ela uma coisa mais do que quase qualquer outra:
Eu sempre irei buscar você.
Sem perguntas.
Não importa onde você esteja. Não importa o que você me disse.
Me chame, e eu irei.
Herdei isso da minha mãe.
Ela nunca disse isso em voz alta.
Ela simplesmente aparecia à 1h47 da manhã.
Era assim que ela dizia.Liguei para a minha mãe há alguns anos.
Disse a ela que me lembrava daquela noite.
Disse a ela que, agora, eu entendia.
Ela ficou em silêncio por um instante.
Então, ela disse:
“Eu só fiquei feliz por você ter ligado, meu bem.”
Foi só isso que ela disse.
Mais de vinte anos depois,
isso ainda me faz chorar.
Paula Modersohn-Becker. Self-Portrait with Two Flowers in Her Raised Left Hand, 1907
7) Nesse fim de semana, meu filho me ajudou a deixar meu telefone monocromático. Estou adorando, não sei bem por que — parece que me acalma. Para mexer nas cores, aperte e segure seu dedo na homescreen e, em cima, à esquerda tem um botão para editar. Clique em “customizar”:
8) Amei a conversa do comediante Josh Johnson com Sam Fragoso aqui. Ele fala de como a terapia serve de fonte de inspiração para seu trabalho e diz que acha que todo quiroprata é um assassino sem talento (ri alto). E esse trechinho:
Basquiat diz que se arte decora o espaço, música decora o tempo. E Johnson completa: a comédia decora a realidade.
9) Hoje passei o dia ouvindo a deusa Feist e seu disco Metals, que amo de paixão:
10) Um amigo gringo vai dar uma festa e me fez o seguinte pedido: “prepara uma listinha de músicas que vai fazer meus convidados brasileiros quererem dançar”. Segue aqui:










O tópico 6 me torou na emenda 🥹
1:47 da manhã, brilhante!