Hottest Takes #164
Manuscrito de Honoré de Balzac (1799–1850) na Morgan Library
1) Com certo atraso, fui conferir o último dia de uma exposição divina na Morgan Library sobre “contar histórias”. Tinha de tudo, desde os primeiros desenhos do Mickey feitos por Walt Disney até publicações raras e antigas de Shakespeare e Miguel de Cervantes, passando pelos manuscritos de Balzac (acima) e manuscritos de James Joyce para Ulysses.
“Come Together: 3,000 Years of Stories and Storytelling” explora como as histórias moldam o nosso mundo. (…)
Come Together traça uma trajetória do universal ao específico, oferecendo novas perspectivas sobre a transmissão cultural das histórias e sua importância global. A primeira seção, “Belief and Belonging” (Crença e Pertencimento), aborda histórias de origem, epopeias, lendas e mitos; já a segunda, “Shaping Stories” (Moldando Histórias), lança luz sobre o processo criativo por meio da apresentação de rascunhos, textos datilografados e esboços — incluindo uma página ricamente anotada do “Ulysses”, de James Joyce, e os primeiros desenhos de Jean de Brunhoff do eternamente popular Babar. O coração da exposição, a seção “Picture This” (Imagine Só), demonstra diversas abordagens da narrativa visual por meio de uma ampla gama de objetos: de miniaturas indianas e bonecos de teatro de sombras a filmes pioneiros e os balões de fala das histórias em quadrinhos.
As fronteiras entre os mundos imaginário e literal se esvanecem na seção “Life Stories” (Histórias de Vida), que reúne textos e obras de arte que dialogam com a experiência pessoal — incluindo os diários de Henry David Thoreau e obras de Philip Guston, Nellie Mae Rowe, Nancy Spero e Kara Walker. O espirituoso desenho de Saul Steinberg, “The West Side” (1973) — que retrata o restante dos Estados Unidos e do mundo como meros apêndices da cidade de Nova York —, dita o tom da seção final: “New York Stories” (Histórias de Nova York). Aqui, obras de Joe Baker, Stuart Davis, Keith Haring, Peter Hujar e outros artistas refletem as reações a essa metrópole multicultural, expressas tanto por visitantes e imigrantes quanto por nova-iorquinos.
Saul Steinberg, “The West Side” (1973)
Storyboard de Maurice Sendak, 1963
2) Reflexão do artista italiano Giuseppe Penone, que está com exposição em cartaz na galeria Gagosian neste momento:
Ano após ano, as experiências da vida nos envolvem;
as memórias se acumulam e formam sua própria substância,
que não tem forma, mas carrega peso.
Toda memória é conhecimento.
3) Acho que dá pra sentir por aqui que maio é o mês oficial das artes em NY, quando os museus e galerias começam a mostrar o que têm de melhor. A galeria Jack Shainman apresenta Lynette Yiadom-Boakye (lê-se “Boatchi”) e suas pinturas impecáveis:
[Ela] cria personagens ficcionais que não estão atrelados a um tempo ou lugar específicos, nascendo de diversos elementos de origem indetectável: pessoas, objetos, pensamentos, fotografias ou imagens que ela desenhou, observou ou evocou de sua memória. Essa ausência de referencial narrativo fixo deixa seu trabalho aberto à projeção imaginativa do espectador. Suas pinturas fundamentam-se em considerações formais tradicionais — tais como linha, cor e escala — e podem, inclusive, voltar-se reflexivamente para o próprio meio artístico; contudo, os temas abordados e a maneira como a tinta é trabalhada são decididamente contemporâneos. Ao descrever sua pintura e sua escrita, Yiadom-Boakye concebe cada uma dessas práticas a partir da linguagem da poesia — uma ficção imbuída de realidade e verdade. Fundindo o visual e o textual, seus títulos funcionam como um elemento adicional que acompanha a pintura e que, tal como suas figuras, não tem a obrigação de descrever, explicar ou justificar.
4) Sobre a origem da pintura, via Projections Systems:
Achei útil aprofundar um pouco mais o relato de Plínio, o Velho, sobre a origem da pintura. Em sua “História Natural” (77–79 d.C.), Plínio discute a metalurgia, a escultura e a pintura.
No Capítulo 5 do Livro XXXV, ele escreve: “Não possuímos conhecimento certo quanto ao início da arte da pintura, nem tal investigação se enquadra em nosso escopo de análise. Os egípcios afirmam que ela foi inventada entre eles, seis mil anos antes de passar para a Grécia; uma vanglória, é evidente. Quanto aos gregos, alguns dizem que foi inventada em Sicião, outros em Corinto; mas todos concordam que teve origem no traçado de linhas ao redor da sombra humana [omnes umbra hominis lineis circumducta].”
Mais adiante, no Capítulo 15, ele narra a agora célebre história de Butades de Corinto: “Foi por intermédio de sua filha que ele fez a descoberta; a qual, estando profundamente apaixonada por um jovem que estava prestes a partir para uma longa viagem, traçou o perfil do rosto dele, tal como projetado na parede pela luz da lâmpada [umbram ex facie eius ad lucernam in pariete lineis circumscripsit].”
Um exemplo:
Jean Baptiste Regnault, Origin of Painting, 1785
Não é lindo isso?
5) Outro dia contei para uma amiga que um dos meus casais favoritos das artes era Dorothy Iannone e Dieter Roth (eram amantes):
Em seu estilo psicodélico característico, Dorothy Iannone retrata a espiritualidade transcendente da experiência sexual feminina. Sua linguagem visual deriva de afrescos egípcios, mosaicos bizantinos e antigas estátuas de fertilidade; o tema principal de seu trabalho é seu muso declarado — amante de longa data e colega artista — Dieter Roth, bem como o relacionamento sexual entre ambos.
Play It Again, 2007
6) Amei os comentários do artista Rirkrit Tiravanija sobre seu processo criativo (via sua galeria de Singapura, STPI):
-Você tem pequenos rituais ou atividades que te ajudam a acessar sua criatividade?
-Sim, fazer nada.-Que ferramentas, objetos e materiais carregam um sentido para você?
- Minha memória, lembrar de não fazer muita coisa e evitar repetir o erro de fazer coisas demais.-O que você nota em momentos de silêncio?
- O vazio é muito cheio.
Rirkrit Tiravanija, Untitled, 2012
7) Uma amigona minha, que está visitando NYC essa semana, me contou que o drink Negroni foi inventado em Florença. Contei para minha mãe, que está na Itália essa semana, e ela respondeu contando que o drink Bellini foi criado em Veneza, de onde ela respondia à minha mensagem. E o mais legal: foi batizado em homenagem ao pintor :)
Acredita-se que o coquetel Negroni tenha surgido em 1919, no Caffè Casoni, em Florença, criado quando o Conde Camillo Negroni pediu ao barman Fosco Scarselli que reforçasse seu Americano, substituindo a água com gás por gin. O icônico coquetel agridoce — caracterizado por partes iguais de gin, vermute doce e Campari — ganhou popularidade oficialmente no início do século 20.
Já o Bellini foi criado entre 1934 e 1948 por Giuseppe Cipriani, fundador do lendário Harry’s Bar, em Veneza, Itália. Inspirado pelo brilho branco-rosado de uma pintura do artista Giovanni Bellini, Cipriani combinou purê de pêssegos brancos frescos com Prosecco para criar esse coquetel refrescante.
8) Não deve haver fim para a experimentação — Zaha Hadid
9) No funeral da patrona das artes Agnes Gund, cada uma das mil pessoas presentes recebeu um livro da biblioteca pessoal dela. Que ideia maravilhosa! Devia virar moda ;)
10) A playlist dessa semana é de coisinhas aleatórias que tenho escutado enquanto torço pra primavera emplacar… Escrevo essa frase de um café no Brooklyn e o vento é tanto que voam copos de papel e guardanapos das mesas à minha volta. Já deu!













A arte sendo a tentativa de capturar uma ausência de uma pessoa amada ❤️