Hottest Takes #156
1) Na varanda do Whitney Museum, a bienal apresenta uma parceria com a Hyundai Motor Company. Trata-se de um trabalho site-specific de Kelly Akashi exposto no quinto andar do museu, Monument (Altadena) 2026 — uma chaminé que é ao mesmo tempo reconstrução e memorial. Akashi perdeu seu ateliê nos incêndios de Eaton, em janeiro do ano passado, e a chaminé foi a única coisa que sobrou. A escultura serve de meditação sobre sobrevivência, ruptura e a permanência frágil daquilo que resta.
O ato de reconstruir não é simplesmente sobre resistência material; é um trabalho deliberado de cuidado, um engajamento com a história e um ato de recuperação. Ao colocar cada tijolo, minha escultura espelha os gestos da própria memória, enfatizando que a lembrança não é dada, ela é construída através do cuidado e da persistência. Cada tijolo carrega o registro de trabalho e transformação material; juntos, eles compõem um novo corpo que mantém os traços de seu passado.
2) Esse trabalho me lembrou um dos poemas mais lindos de Carlos Drummond de Andrade, “Resíduo”. Trecho abaixo, íntegra aqui.
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um poucoFicou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).(…)
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.(…)
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.(…)
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
3) Fui visitar um barco que estava ancorado em Nova York nesse fim de semana a convite de um amigo. Na apresentação que o capitão fez, ele disse que a regra de convivência para os tripulantes segue uma ordem:
Primeiro, você cuida do barco. Depois, dos seus parceiros de barco. Por último, você cuida de você — “ship — shipmate — self”.
Bonito, né?
4) Outro dia, minha amiga Flavia usou uma expressão que eu nunca tinha ouvido antes: “don’t budget your feelings” — algo como, “não trate suas emoções como um orçamento” ou “não tente controlar seus sentimentos”.
O conselho sugere que a gente não deve restringir, suprimir ou racionar nossas emoções para tentar se proteger. Tentar controlar os sentimentos surge do medo de que se você se doar demais, não vai sobrar nada. Enquanto, na verdade, o que tende a acontecer é a energia emocional ser reabastecida pela conexão e pela autenticidade, em vez de diminuída por conta da “entrega”.
Danica Phelps
5) Assisti — e adorei! — o novo documentário sobre Paul McCartney. O longa foca nos anos seguintes ao fim dos Beatles. O cantor tinha só 27 anos quando a banda terminou… acho chocante pensar que eles produziram todos aqueles discos lendários antes de completar 30 anos! O filme também cobre a morte de John Lennon. Desde então, só quero ouvir Wings e fiquei apaixonada pela Linda McCartney (também responsável por grande parte do material visual que vemos no doc)! Recomendo vivamente:
PS: estou louca pra ver It’s Never Over, o doc sobre o Jeff Buckley, também passando no Prime.
6) Estou preparando um curso de história da arte online. Pensei em falar de NY usando os museus para organizar as aulas. Queria saber de quem lê essa newsletter: que outros assuntos acham interessantes?
7) Amar como a estrada ama os que se perdem — Mar Becker
Michael Heizer
8) Meu irmão e eu somos fãs dos Los Hermanos. Outro dia ele me mandou algumas músicas antigas da banda e eu entrei no túnel do tempo — passei o resto do dia só reescutando os clássicos. Essa playlist aqui é beeem boa:
9) Quem mais está animado para o fim de semana do Oscar? Um amigo falou para eu espiar os sites de apostas para ver que filmes estão com chances de vitória (vejam aqui). Assisti quase todos os principais concorrentes e hoje diria que estou torcendo por Hamnet ganhar melhor filme ou, ao menos, melhor direção.
10) Nesse fim de semana fui com um grupo de amigos a um karaokê. Minha impressão é de que as melhores ideias do que cantar sempre aparecem depois que o programa já acabou hahaha. Por isso, comecei uma playlist com músicas gostosas pra tentar lembrar quando estiver no palquinho na próxima vez (infelizmente aqui em NY não temos a opção de cantar hits brasileiros!). Aqui.









Adoro todos os assuntos que vc aborda nas Hottest Takes. Gosto que vc trata de arte sem falar apenas dela, revelando ecossistemas, suas emoções e outros interesses imbricados. Mas por favor, nao se restrinja a NY... Mostre, reflita e comente sobre tudo que te interessa, é muito mais rico para nós. Talvez didaticamente num curso fique um pouco mais difícil, mas gosto da ideia de "rizoma" de idéias.
Adoro toda a sua curadoria de ideias e trazer um pouco das suas reflexões existências, budismo, literatura etc em conexão com a arte pode ser muito legal! M