Hottest Takes #152
Graham, um sheepdog, ficou entre os finalistas do Westminster Dog Show
1) Semana passada fui ao Dog Show, que acontece todo ano em NY — essa edição celebrava os 150 anos do evento. Eu já tinha ido uma vez, quando meus filhos eram pequeninos, e adorei ter voltado.
Queria deixar claro que não entendo nada de cachorros e também contar que minha amiga, que ama vira-latas, acha o Dog Show uma crueldade. Isso dito, vamos lá:
O show, que acontece no Madison Square Garden (mas tem eventos paralelos onde você pode interagir com os doguinhos no Javitz Center), examina se cada participante representa bem a sua raça — estrutura, temperamento, movimento e condição. Reparei que eles checam simetria (colocando a mão em estilo caratê entre os olhos dos peludos), examinam os dentes (daí a frase “cavalo dado não se olha(m) os dentes”, né?), além de passar a mão na barriga dos pets para conferir o ângulo.
Meus cachorros favoritos foram os hounds (especialmente os beagles, aqueles primos do Snoopy, tristonhos, com a orelha que arrasta no chão), os que têm pelo rastafari, e esse da foto acima, o sheepdog mais fofo do planeta).
2) Também na semana passada, estive numa conversa sobre os 30 anos do livro Infinite Jest (Graça Infinita), de David Foster Wallace, falecido em 2008. Adorei ver de perto a Deborah Treisman, editora dos textos de ficção da revista New Yorker, de quem sou fã. Laura Miller, colunista do Slate, também estava lá e falou sobre a entrevista que fez com Wallace sobre o livro. Corri pra ler e adorei esse trecho (íntegra aqui):
Falando sobre sua geração e sobre os Estados Unidos na virada do milênio:
Há algo particularmente triste, algo que não tem muito a ver com circunstâncias físicas, ou com a economia, ou qualquer coisa que seja dita no noticiário. É mais como uma tristeza no estômago. Vejo isso em mim e em meus amigos de maneiras diferentes. manifesta-se como uma espécie de perda. Se é exclusivo da nossa geração, eu realmente não sei.
DFW
3) Trechos levemente editados sobre Winnicott, via minha terapeuta querida Juliana Ferraz:
Winnicott considerava mais adoecida não a pessoa neurótica ou psicótica, mas aquela que perdeu a esperança. A esperança é uma dimensão humana fundamental e preciosa para ele.
A criança excessivamente adaptada é um exemplo de criança que perdeu a esperança, já que só é saudável a criança que transforma a realidade em algo pessoal, próprio; aquela que busca a realidade para testá-la, experimentá-la e transformá-la (…). A criança excessivamente adaptada não tem nada a acrescentar ao mundo. Ela não acredita que possa fazer algo para tornar a realidade um pouco dela também.
(…) A disposição para a vida é uma disposição esperançosa para chegar a algo próprio nas experiências.
Dito isso, tenha esperança de que a realidade seja sua e, dessa forma, descubra seus espaços, controle e conheça as coisas, encontre prazer nelas e também suas utilidades. Faça barulho e silêncio, relacione-se com o próximo, com os seres vivos, fale sobre tudo isso, receba e doe, saiba e invente, porque você é um ser humano em amadurecimento, e só será porque tem esperança de que seja sua a vida.
Menina em Azul, Amedeo Modigliani
4) David Brooks saindo do NYTimes depois de 22 anos:
Quando penso em como o mundo mudou desde que entrei no New York Times, a tendência predominante tem sido a perda coletiva de fé dos americanos – não apenas a fé religiosa, mas de muitos outros tipos.
Como resultado do progresso tecnológico e da decadência humanista, a vida se tornou objetivamente melhor, mas subjetivamente pior. Ampliamos a liberdade pessoal, mas falhamos totalmente em ajudar as pessoas a responder à questão de para que serve essa liberdade.
Lee Bontecou
5) Isabel Allende:
Talvez estejamos neste mundo para procurar o amor, encontrá-lo e perdê-lo, de novo e de novo. A cada amor, nascemos de novo, e a cada amor que termina recolhemos uma nova ferida. Estou coberto de cicatrizes orgulhosas.
René Magritte
6) Leonard Cohen:
Se você não virar o mar, ficará sempre enjoado.
7) Parceria artsy fashion: Stella McCartney e Jeff Koons se juntaram para fazer um sweater de poodle para a Dover Street Market. Apesar de ser levemente bizarro, amei. Acho que fui influenciada pelo Dog Show!
8) Minha professora de yoga solta as melhores pérolas. Essa semana ela disse:
Sua respiração cria espaço em seu corpo. Suas opiniões, não.
9) Vocês já ouviram falar do Nike Mind, um tênis que promete ampliar suas sensações através de pontos de estímulo nos seus pés. Essa pressão ativa a parte sensorial do seu cérebro através desses milhares de mecanoreceptores que ficam na solo dos nossos pés. Vai te deixar mais calmo e mais estável — o modelo foi criado por um grupo de neurocientistas. Confesso que fiquei morrendo de vontade de provar…! Aqui.
10) Hitzinhos que escutei nessa semana:










Quando li sobre a tristeza no estômago dessa geração , estava pronta pra responder! Continuei lendo e o David Brooks falou exatamente o que eu estava pensando. Essa perda do sagrado, dessa dimensão religiosa , e o excesso de materialismo, desconecta as pessoas do Inconsciente coletivo, e a capacidade de sentir o numinoso que alimentava a vida de sentido.
Gisela sempre adoro a curadoria de reflexões que você traz! Estou relendo um livro que também traz conceitos explorados pelo Wallace e pensei que tem muito a ver com o tipo de pensatas reflexivas que vc sempre aborda aqui na news… Silencio na era do ruído, do explorador Erling Kagge. Vc até já deve ter lido ! Senão compartilho a dica que acho que vc vai gostar :)